
Eu gosto de coletâneas. E admito mesmo, gosto sim! Acho que não há melhor maneira de conhecer a obra de um artista, principalmente se ele é veterano. Você primeiro saca os hits e depois se aprofunda nos terrenos que gostar mais, e aí é que parte pros discos de carreira.
Mas comigo, no caso de Elton John, a coisa foi um pouco inversa. Eu já conhecia um punhado de músicas dele dos meus anos de infância, coisas como "Nikita" e "Sacrifice". Mas só mais velho tive real acesso ao trabalho desse cara absurdamente talentoso. Primeiro com os álbuns "Elton John" (1970) e "Goodbye Yellow Brick Road" (1973), em seguida com "Honkey Chateau" (1972), "Don't Shoot Me, I'm Only The Piano Player" (1972) e outros.
De qualquer forma, acho que Elton atravessou os anos 1970 com muita dignidade. O cara, junto com seu parceiro Bernie Taupin, lançou músicas que são verdadeiros ícones da música pop, daquelas que fazem parte do inconsciente coletivo. Já a partir da década de 80, como muitos colegas que vieram com ele, Elton deu suas escorregadas e muita gente já achava que o pianista tinha "perdido a mão", embora vez por outra emplacasse um single aqui e ali. Em 2001 o homem recuperou a energia soltou duas pérolas: "I Want Love" e "This Train Don't Stop There Anymore", que sem medo de errar eu mando pro páreo das melhores de EJ.
Pensando assim, notei que eu ainda não tinha uma compilação de toda a carreira de Elton, e gostava de muita coisa isolada de discos que eu não possuo, ou até faixas de singles. Fui atrás e achei essa que é a mais recente, "Rocket Man: The Definitive Hits". O CD saiu em 2007 em celebração aos seus 60 anos e adota um conceito estabelecido pelos Beatles em 2000: os maiores sucessos do artista compilados em apenas "1" disco, a coletânea de luxo. Fui pesquisar e vi que o CD tem nada menos que 17 versões diferentes lançadas, com tracklists elaborados a dedo no objetivo de agradar cada país em que saiu. Por isso a inclusão de "Skyline Pigeon" (1972) na edição nacional. Essa faixa foi um sucesso tão grande por aqui que rendeu regravações diversas, muitas naqueles discos genéricos de super hits. Lá fora era mais conhecida por outra (e inferior) gravação presente no álbum "Empty Sky" (1969).
Bem, só por essa faixa já valeria ter o CD. Mas o que me impressionou mesmo foi a qualidade sonora de todo o álbum. Mesmo as faixas mais antigas, como "Your Song" (1970), têm uma clareza emocionante de detalhes, num trabalho de remasterização perfeito. Não posso afirmar se seria o mesmo trabalho que os discos de EJ receberam uns anos atrás, quando saíram na série "The Classic Years". Mas seja o que for está ótimo, chega a ser gostoso de se ouvir.
As faixas selecionadas para o exemplar brazuca serviram muito bem meu objetivo de ter canções não contidas nos álbuns de carreira que, diga-se, são muitos. "Philadelphia Freedom" (1975), uma das prediletas da casa, foi escolha muito acertada logo após "Bennie And The Jets" (1973), faixa do já citado "Goodbye Yellow Brick Road" que traz mais outras duas pra compilação: a faixa título e "Candle In the Wind". Após as obrigatórias "Daniel" (1973) e "Rocket Man (I Think It's Going To Be A Long Long Time)" (1972), outras duas faixas vêm em grau elevado de importância pra mim - "I Guess That's Why They Call It The Blues" (1983), que ainda tem o bônus de trazer Stevie Wonder tocando gaita, e "Tiny Dancer", (des)conhecida desde 1971 no álbum "Madman Across The Water". Essa é outra que está no rol das mais belas da dupla John/Taupin e, mesmo tendo feito relativo barulho na época, só estourou mundialmente por causa do filme "Quase Famosos", do diretor Cameron Crowe, quase trinta anos depois.
Um descuido por parte desta seleção brasileira de hits é a ausência de "Nikita" (1985), faixa de "Ice On Fire", um álbum sem maiores destaques. Embora longe de ser unanimidade até entre os admiradores do artista, a música emplacou de forma assombrosa no Brasil e até hoje é tiro certo nas rádios "adult contemporary". Outra que imperdoavelmente ficou de fora foi "You Gotta Love Someone", sucesso absoluto por aqui em 1990, ao lado de "Empty Garden" (1982), ode ao então recém falecido amigo John Lennon. O Beatle também tem a ver com mais dois mega hits de Elton em nosso país: "One Day At A Time", de 1974, e a versão ao vivo para "Lucy In The Sky With Diamonds", todas ausentes. Além disso, o CD tem outras derrapadas. A versão ao vivo de "Don't Go Breaking My Heart", gravada em 2000, embora conte com a participação de Kiki Dee, está anos-luz aquém do original de 1976. E "Tinderbox", presente em quase todas as versões estrangeiras do disco, é uma música até simpática mas que só está na lista pra puxar o recente "The Captain And The Kid", de 2006.
Voltando ao que interessa, "Don't Let The Sun Go Down On Me" felizmente está em seu registro original de 1974, porque a obviedade seria incluir a versão ao vivo de 1991 em dueto com George Micheal, essa sim um mega hit nas rádios brasileiras. Gol involuntário. "I Want Love" (2001) marcou tanto o retorno de EJ à boa forma que foi tocada até naquele Jubileu Da Rainha, um show insosso que ainda circula em DVD por aí. Outra obrigatória. "Crocodile Rock"(1972) é mais uma certa na seleção brasileira, pois tocou demais por aqui, assim como o baladão "Sacrifice" (1989). Datada pelo excesso de sintetizador e bateria eletrônica que escondem uma melodia belíssima e letra reflexiva, também marcou muito pelo video que emplacou com a chegada da MTV Brasil. Me lembro desse clip em uma aula de inglês no colégio...putz. Encerrando o disco (18 faixas - um número bom), "Sad Songs (Say So Much)", que foi single de "Breaking Hearts" (1984). Levadinha pop que ainda conta com boa execução.
Ao todo, esse "Rocket Man - The Definitve Hits" foi a escolha certa, pois o disquinho mata dois coelhos. Juntar músicas essenciais de Elton com sucessos radiofônicos, incluindo pelo menos uma raridade (Skyline Pigeon), e tudo numa qualidade de som filha da puta. Pra quem quer se iniciar na obra de Elton é um disco perfeito. Circula também em edição com DVD bônus, que traz um show recente e uns clips extras. Abaixo, "Sorry Seems To Be The Hardest Word", em performance ao vivo no Top Of The Pops, em 1976. Uma das canções mais tristes de Elton John, e mais um gol desta seleção de sucessos.